domingo, julho 24, 2011
iluminação / illumination
tentei escavar na testa com as unhas
um terceiro olho,
mas também os segredos contidos na carne
não são suficientes para abri-lo
failing to do it otherwise,
i've tried to scratch out on my forehead
a third eye,
but the secrets contained in the flesh
are insufficient to open it as well
quarta-feira, setembro 01, 2010
On Art
segunda-feira, agosto 09, 2010
an apology of arrogance
tolerance is an attitude that, instead of accepting people for what they are, ignores them and creates a distance between us all. we don't tolerate good things, only bad ones. who ever heard of tolerating love or friendship? we tolerate faults and bad stuff, and tolerating someone is creating a rift between them, as if they are bad and wrong and we should just ignore it.
arrogance, on the other side, is accepting the solipsistic view that our biology confines us to and, being aware of it, relating to other people as they are, with all their faults and annoyances. only by accepting our own arrogance and by accepting others as they truly are can we relate closely to others. the key word here is "accepting", a moment of letting ourselves open to others and letting them into our lives. only arrogance permits us that.
terça-feira, dezembro 29, 2009
haunted
segunda-feira, maio 18, 2009
#daydreaming on twitter
soft walls, strained bodies, hands held
tired bodies, hands glued, no walls
quarta-feira, abril 22, 2009
if it's not love
Numa época em que o pós-modernismo se estabeleceu, onde as relações são mediatizadas pela produção de cultura e quando o tamanho dos grupos sociais ultrapassa os 160 que a ciência diz que parece ser o nosso limite, o que nos une como comunidade?
O Amor consegue unir-nos em pequenas unidades: casal, família, amigos, mas como poderemos nós justificar a existência e persistência de mega-cidades com 15 milhões de pessoas, todos convencidos da sua igualdade perante a lei e da sua unicidade como indivíduos?
Talvez a nossa capacidade social limitada possa explicar a proliferação de círculos sociais que frequentamos, mas não a nossa tolerância da maioria que nos é completamente desconhecida.
Será que, como cantavam os Smiths, é o medo que nos une? Vejamos o exemplo de Nova York pós 11 de Setembro e de como, contra um inimigo comum, todo um país se juntou, uma comunidade de milhões de pessoas, espalhada por milhares de quilómetros. As versões nacionalistas da História fazem-no constantemente: recontam as vitórias do passado para justificar qualquer pretensão e, por outro lado, também as derrotas para encontrar um inimigo comum que una as pessoas.
Será que, nesta época que se define como iluminada e racional, é só o medo que nos une?
quarta-feira, dezembro 31, 2008
Fé
Este é um tema facilmente compreendido pela ciência quando aplicado a outros contextos: pela biologia, no conceito da diferença da consciência animal e humana; pela sociologia, no conceito do grupo e da sua mentalidade colectiva em oposição ao indivíduo; na psicologia, na impossibilidade de compreender "o outro"; pela química, na impossibilidade de conhecer o estado de todas as partículas de determinado sistema; etc., mas que não costuma ser tomado em conta, a não ser por um punhado de filósofos e teólogos e no contexto de alguns textos religiosos.
Há não muito tempo, a religião e a ciência complementavam-se na missão de tentar conhecer Deus, só mais tarde, com os protestantes, se começaram a definir como antagonistas. Agora, depois do Iluminismo e das correntes ateias da filosofia, esta divisão parece inevitável, mas, se a dúvida é a condição humana, tanto a religião, como a ciência, como a filosofia são estratégias diferentes para lidar com ela, pela fé, pelo conhecimento, pela transcendência ou por qualquer outra via; estas estratégias, mais do que competirem entre si, complementam-se.
Não se pode cair em fundamentalismos ou radicalismos unilaterais ou negar alguma delas só porque ”não é possível provar” ou porque "vai contra os textos antigos": a Fé não exige prova, ajuda-nos a persistir no dia-a-dia, a encontrar significado na nossa vida; a Ciência tenta ser exacta, ajuda-nos a compreender o que nos rodeia e a desenvolver novas tecnologias para a nossa sobrevivência; e a Filosofia ajuda-nos a definir uma via, uma forma de estar e de agir. Sozinhas, em vez de nos ajudarem a lidar com a dúvida, só servem para nos cegar e dar-nos certezas que não existem, em conjunto, ajudam-nos a ser melhores.
quarta-feira, outubro 22, 2008
João 21:10
acordo assustado em pleno luar, para me levantar exausto horas depois, assombrado por simbologias estranhas e rapidamente obsoletas e esquecidas
as abluções matinais adiadas pela ansiedade do atraso habitual que me leva à conclusão de um atraso de anos, a oficialização de uma separação já há muito inevitável
um botão negro desponta por cima do estômago a abre no final da tarde, com a chuva, lançado no ar o seu pólen negro que se acumula debaixo das pálpebras
a fragilidade confessional abre-me a boca indiferente às dúvidas que se levantam
a pele encolhe-se com a humidade, imitando papiro, seco e áspero, revelando à superfície hieróglifos, indicações de rituais atrozes com o sangue a escorrer por degraus entretanto cobertos por vegetação
na rua, depois de impotente perdido por mapas não-familiares, um comando "espera!" sai de um capuz púrpura para um telemóvel que se esconde no fundo do saco a gritar por atenção. "foda-se!" o telemóvel cala-se em contacto com o ar e jesus sorri-me em tons laranjas de um postal agarrado à pressa para chegar a ele
no útero narrativo, hoje metamorfoseado em falsa sala de concertos, só um candy says na voz estrangulada de Antony me consegue deslocar do sonambulismo dentro do qual todo o dia me escondi
as ruas espelhadas de lisboa reflectem a minha passagem por velhos territórios na demanda de alívio negado por problemas técnicos
a torrente das palavras despenha-se no metro no regresso a casa onde as irmãs reinstauram a crueldade de uma lei inconsciente e o visco encrustrado de pólen negro me fecha os olhos
segunda-feira, outubro 06, 2008
When did you last see your father?
Fui ver hoje, um pouco contra o meu parco bom-senso, o filme com esse nome, baseado num best-seller que não li, onde o autor conta a sua relação com o seu pai, já no final da vida deste. O filme em si, ainda que impecavelmente filmado e representado, peca por alguma falta de originalidade, mas afectou-me...
O meu pai morreu há vinte e cinco anos, a meio de um processo de separação com a minha mãe, e as minhas poucas recordações dele são fragmentos já muito apagados pelo tempo e alterados pela narrativa interna que se foi desenvolvendo com as suas fotografias, as histórias da minha mãe e as minhas necessidades emocionais de apaziguamento. Mesmo em plena terapia, nunca procurei explorá-las a fundo com medo que se desfizessem, como uma qualquer relíquia que durante anos esteve guardada no fundo de um baú apenas para se tornar em pó ao contacto com o ar.
Estas memórias são tão singulares que nem verbais são: as suas mãos a tremer enquanto me agarrava, a sua barba a arranhar quando lhe desejava boa noite, uma sensação de cansaço que parecia sempre estar presente... nem uma história completa fazem. Quando é que vi o meu pai pela última vez? Não sei. Curioso nem ter uma figura completa para esta sensação "pai". Demorei mais de vinte anos a chorar a morte do meu pai, depois de anos de terapia... hoje foi mais fácil fazê-lo.
quarta-feira, março 12, 2008
Subway
She left him on the subway train to get to work. He realized, watching her back, that he was going to lose her. These past months growing irksome with conflict and, worse, silence. He wanted to reach her, to make her love him, to remind her of her offer so long ago, in a day long forgotten, when he, still unsure, refused her. Can you love too late?
The subway was filled of a thousand such stories, a thousand eyes hiding tears of frustration and sadness, each for one's own misery, disconnected in all but the fact that they were all on the same subway train. If only love were as simple as the subway: when one finds that one has missed one's station, all one has to do is get on the next subway train going in the other direction. How can love be so illusory, so fickle? Just a few months after her offer, when he finally understood that, no matter what doubts he was able to conjure, and he could do it just by breathing, he wanted to be with her, she told him that she no longer saw him like that, that all she wanted was a friend, and now even that seemed to be fading.
It had been like this throughout his life, missing stations and collecting friends, and he just didn´t know how he could leave this damn subway train, how he could follow her and let her know that if she wanted they could find a station just for the two of them, where no trains would pass...
He resigned.
Between stations, he kept looking to the station map affixed on top of the train doors, anxiously hoping for a sign.
terça-feira, fevereiro 05, 2008
A Fuga do Areeiro
Meses depois de ter saído daquele apartamento, estava de volta.
A ideia original era boa: partilhar casa com amigos para tentar reduzir as despesas e ao mesmo tempo divertirmo-nos, mas em pouco tempo comecei a perceber que não seria assim tão simples e, depois de um ano de estar ali, acabei por encontrar um sítio só para mim e fui-me embora. Foi nessa altura que tudo começou a correr mesmo mal e, por isso, quatro meses depois de ter saído, depois de algumas confusões com a senhoria, estava aqui para limpar a casa para poder finalmente entregar as chaves. Era esse o plano: limpar a casa, entregar as chaves e acabar com a história toda.
Saí do trabalho às cinco e apanhei o comboio para o Areeiro, à espera de ainda apanhar alguma luz do dia, já que a electricidade já tinha sido desligada no final do mês anterior. Esse era um dos problemas... esse, a água já estar cortada e a única coisa que havia para limpar a casa era uma esfregona que tinha sido deixada para trás, mas isso não me ia impedir de pelo menos tentar limpar os campos de pó que se estendiam pelo chão e os castelos de cotão nos cantos que entretanto tinham povoado os quartos vazios.
Enquanto estava no comboio comecei a sentir-me mal, o meu almoço (ou talvez a ansiedade da situação) estava a provocar uma pequena revolta no meu interior e e algo dentro de mim ansiava pela liberdade como a juventude na capital portuguesa em Março de 74. Comecei a pensar como poderia resolver a situação: talvez ir ao café em frente e aliviar-me ou talvez comprar uma garrafa de água e fazê-lo mesmo na casa-de-banho da casa que ia limpar. Nada que litro e meio de água mineral não limpasse... Dirigi-me à mercearia mesmo ao lado da casa e comprei uma garrafa de água mineral. Das baratas, não valia a pena estar a gastar muito dinheiro para a função que ia servir. Subi as escadas com alguma urgência, abri a porta, abandonei a pouca luz das escadas, atravessei a escuridão da casa e dirigi-me a casa-de-banho, ao fundo, onde me aguardava em silêncio o meu alívio. No final, num gesto meio-mecânico, meio-esperança, puxei o autoclismo. Quando a descarga se iniciou, levou com ela o pessimismo que estava a coleccionar desde o comboio: tinham deixado uma última descarga! Assim, ia aproveitar a água mineral para dar uma limpeza final, tentar eliminar qualquer coisa que me escapasse à primeira passagem.
Mais animado, virei-me para enfrentar a escuridão e o silêncio e da tarefa que me esperava. Tinha visto a casa no sábado anterior, quando tinha ido entregar as chaves à senhoria e esta as tinha recusado porque tinham deixado imensas coisas para trás e porque estava suja. Nesse mesmo dia, deitei 3 sacos do lixo grande fora, com coisas que tinham sido abandonadas e não me pareciam ter interesse em guardar, e tomei as devidas medidas para que o grande armário, que ocupava a entrada da casa, não estivesse lá quando a fosse limpar. Percorri todos os quartos, abrindo todas as janelas na esperança de fazer entrar alguma luz, mas em Dezembro às seis já não há luz. Ainda assim, as luzes de iluminação pública garantiam o mínimo de luz de forma a não andar a bater nas paredes, mas não o suficiente para saber qual a eficácia da minha limpeza. Hesitei. Talvez fosse melhor voltar no fim-de-semana, durante o dia. Não. A casa ia ficar limpa naquele dia e, quando saísse, ligava à senhoria para combinar a entrega das chaves e pôr um fim à situação.
Na cozinha tinha deixado uma esfregona e um balde. Fui buscá-los e delineei duas fases de trabalho: primeiro "varrer" o chão com a esfregona, depois lavá-lo com a água mineral. Peguei no leitor mp3 e comecei a ouvir o podcast do Museu de Arte Contemporânea de Chicago, com a ideia de afastar as ideias o mais possível de toda a situação, assumindo a limpeza, na impossibilidade de ver o que estava a fazer, um papel mecânico, milimétrico, comportamento quase-obsessivo, balançando de um pé para o outro, enquanto a esfregona arrastava consigo rolos de cotão e cabelo e pó. No final da primeira fase tinha um monte de lixo que acumulei na ombreira da porta da casa. Hora e meia. A segunda fase talvez fosse mais rápida. Abri a garrafa de água e despejei-a para o balde. Só nessa altura me perguntei se este poderia ter alguma coisa. A luz não mo permitia ver e não estava ansioso por pôr a mão dentro dele para descobrir. O plano estava estabelecido e com uma passagem rápida o dano não poderia ser muito grande. Recomecei. Essa fase não correu tão bem, a dúvida do que estava a fazer perseguia-me: estaria a espalhar algo sobre o chão em vez de o limpar? Persisti e pensei que, no dia de entregar as chaves, poderia sempre vir mais cedo e ver se era necessário tomar alguma medida adicional. O carácter minucioso-obsessivo da tarefa fez com que não percebesse a passagem do tempo. Mais uma hora e meia. Mais hora de meia de comportamento autista, a agenda de um museu no outro lado do mundo nos ouvidos, a dançar com a esfregona pela pista da casa despida.
Meses depois de ter saído daquele apartamento, após mais de três horas de movimentos na escuridão, finalmente abandonei-o. Doíam-me as costas, da posição que tive de manter durante horas, e atormentava-me a ideia de que o que acabava de fazer poderia não ter servido de nada, a escuridão impedindo-me de medir os resultados. Na mão levava o balde com o lixo e a esfregona, à luz, preta, como a sensação dentro de mim. Deixei-os no lixo, mas a sensação trouxe-a para casa e só me livrei dela há pouco tempo... mas aprendi.
segunda-feira, novembro 12, 2007
Ficção científica
Estava há dias a ouvir umas aulas do MIT sobre neurobiologia e comportamento, onde foi dito que a ideia cartesiana do corpo como uma maquina atrasou toda a pesquisa feita na área e a compreensão que tínhamos destes mecanismos, quando me pus a pensar na ficção científica na cultura popular, principalmente do tema que retrata a subida da máquinas e a subsequente conclusão da imperfeição da humanidade e da sua perseguição. Sempre reduzi este género de ficção a uma reacção à invasão da tecnologia da vida moderna e a ideias anacrónicas de um "passado de ouro" em que tudo era mais simples porque a tecnologia cria tantos problemas como os que resolve, mas algo mudou.
A evolução tecnológica é uma consequência da evolução do mercado, baseando-se nela e, ao mesmo tempo, reforçando-a. Com a reestruturação da sociedade moderna em função do capital, em vez do social, a tecnologia invadiu todos os campos da nossa vida, não num sentido de controlo, mas com pressupostos industriais mecanicistas (como a produtividade) aplicados à vida privada. Quando a ficção científica explora a subida das maquinas ao poder, mais do que uma reacção à tecnologia em si, explora estes pressupostos a que estamos reduzidos, recusando-os e buscando valores que "transcendam" esses conceitos mecanicistas e que possam definir a humanidade de maneira diferente. Infelizmente muitos desses valores são baseados na religião ou na filosofia que são baseados por sua vez na negação do corpo que tão bem define a sociedade ocidental.
O grande sucesso desse grande desastre cinematográfico dos irmãos Wachowski - "The Matrix" - parece-me basear-se exactamente nesse ponto: na frustração que quase todos sentimos com a vida moderna e a mecanização (quer pela tecnologia, quer pela razão) de algo que sentimos ser irredutível, mas contra a qual não temos noções de como reagir sem cair no histerismo ou sem buscar um significado oculto que possa adicionar sentido à nossa vida (o que no último filme da trilogia assume uma iconografia super-carregada extraída de várias origens, mas sem sentido retirada dos seus contextos originais). Este último ponto também é responsável pelo sucesso d'"O Código Da Vinci" e dos seus sucedâneos, todos construídos sobre uma agenda sócio-política que os torna bastante enfadonhos e banais.
Sulcos
Pegando no conceito de Einstein de que o espaço não é curvo por causa das massas dos corpos celestes, mas que estas massas ocupam aqueles lugares por causa daquelas curvas e na aplicação psicanalítica deste conceito de Žižek, não será possível aplicar o conceito a outras áreas como a sociologia, psicologia, filosofia, teoria da cultura, etc.?
Não seria, então, possível descobrir padrões relevantes resultantes de constantes físicas/biológicas/químicas, sócio-culturais, geográficas, históricas, etc.?
A conjugação de determinados parâmetros iria criar a abertura para surgir determinado tipo de resposta (não a resposta em si, porque essa seria sempre contextual). A ideia de que determinados conceitos/invenções são independentes da história ou génio de uma pessoa, mas surgem devido a factores histórico-sociais que a facilitam (quase que a provocam), não parece indicar mesmo nesse sentido?
Assim, características pessoais seriam de encontrar mais facilmente em determinados contextos e a origem dos estereótipos seria apenas a abstracção e generalização de essas experiências.
Por outro lado, se é assim que aprendemos, será que não encontramos essa estrutura porque é assim que apreendemos a realidade?
Não só estamos limitados na nossa percepção da realidade (para não dizer impedidos de o fazer), como a maneira como o fazemos (de)forma a experiência.
quinta-feira, novembro 01, 2007
Anti-Social Networking
Acho que a solução seriam perfis ou níveis: haveria um nível muito básico de apresentação (não muito mais do que foto e nome) e a esse nível poderiam ser atribuídos um ou vários perfis. Já sei que muitos destes sites permitem definir algumas zonas como "privadas", mas isso quer dizer que todos os "amigos" as conseguem ver. Pegando no exemplo das fotografias dos excessos do fim-de-semana, podia ter interesse em partilha-las com alguns amigos, mas que a família não a visse. Imaginando que vou a uma reunião de determinado grupo (uma LAN ou algo semelhante) essas fotos poderiam ser completamente indiferentes às pessoas que não participaram nela. O que proponho é a criação deste níveis, como "família", "emprego", "amigo", "conhecido", e a possibilidade de os combinar: um amigo no emprego teria esses dois perfis, um primo distante podia ser só "família", mas um mais próximo podia também ser "amigo", com acessos a diferentes informações. O que proponho é a esquizofrenizaçao e hierarquização dos nossos egos virtuais e das nossas relações, à semelhança do que acontece na realidade. Admitir que somos pessoas diferentes em contextos diferentes e até explora-lo... parece-me que seria um exercício melhor de auto-conhecimento e definição do que criar personas unidimensionais com as quais nem sempre nos identificamos.
quinta-feira, agosto 02, 2007
Laranjeira
Ela estava tão sintonizada com a Natureza que um dia acordou com um rebento de laranjeira a nascer dentro dela. A princípio não a incomodava, mas com o tempo a laranjeira começou a crescer e a casca irritava-lhe a pele. Os médicos queriam cortá-la, mas ela recusava-se a matar uma árvore. Quando começou a tropeçar as raízes e a prender as pessoas nos ramos, a mãe começou a censurá-la: "não fica bem a uma rapariga bem educada!". Tentou podá-la. Tentou fazer da laranjeira uma árvore bonsai, delicada e com bom aspecto, socialmente aceitável. Todas as pessoas elogiavam a sua técnica e sentido estético. Na Primavera, quando se enchia de flores, chegou a participar e ganhar prémios em concursos.
Há já muito que não a vejo, não sei como a história acabou, mas ainda me lembro que as suas laranjas eram as mais doces que alguma vez provei...
quinta-feira, março 08, 2007
Perguntas sobre o feminismo
Post com pouco sentido (um bocado cru)
"como redefinir um conceito? por oposição ao seu antónimo ou baseado na diferença entre os dois? como tentar redefinir um sem mudar o outro? ainda que seja possível construí-lo de forma parcial, será que todo o sistema de coordenadas não se altera e modifica todos os conceitos ligados a ele? será que as ligações entre conceitos são puramente culturais ou há uma corrente humana mais básica que define certos conceitos-base? como afecta o hiperreal o mapa conceptual? o aparecimento de uma fissão entre o mundo físico externo e o mental interno não é hiperreal? a inversão hiperreal não provoca que os conceitos se sobreponham ao físico, provocando mais desvios? como pode um conceito como o feminismo definir-se quando o conceito de género tem-se desintegrado em componentes conceptuais não baseados no físico? como integrar num movimento feminista novos géneros e a redifinição dos já existentes? parece ter de incluir a probabilidade de criar a sua obsolescência, mais: procurá-la. qualquer movimento de igualdade tem de buscar redefinição de sistemas conceptuais e de buscar o seu fim eliminando a sua necessidade. será que os movimentos que existem não pecam por não procurarem o seu fim?
no hiperreal qualquer sistema de organização (como a psicanálise) é válido e self-sustaining já que reduz tudo a si próprio e explica o que sai fora de si como estando em oposição/negação, rebatendo-o em si e justificando-o. tendo isto em conta, qualquer problemática/movimento pode ser definido e defendido ou (re)inventando conceitos ou usando os que quer alterar, com o efeito perverso de os reconhecer e reforçar nessa escolha. os movimentos iniciais do feminismo estavam demasiado marcados pelos conceitos vigentes (ainda que estes fossem diferentes em outras épocas/locais/culturas) ou pela diferença biológica."
"como é que nos definimos num género? dentro de conceitos pré-estabelecidos e dos seus opostos ou de formas não-convencionais? como é que se pode sair do registo da construção social e do preconceito e encontrarmos novos conceitos? toda a minha vida me defini como homem na capacidade de transformar uma mulher: primeiro pelo mito da fecundação, depois pelo mito da libertação sexual. sempre me vi como um agente de transformação em que a minha masculinidade era correspondente à mudança que era capaz de efectuar, à capacidade de realizar plenamente a mulher, com duas consequências: sempre estive de modo parcial nas relações e a minha acção tornava-me obsoleto. pior: em vez de ser feminista, a minha postura é de descriminação positiva, igual de machista, paternalista e condescendente que a existente há séculos. por isso: como podemos pensar e definirmo-nos dentro de determinados conceitos, neste caso de género, sem cairmos sempre nos eixos e maniqueísmos?"
"como pode um homem compreender as matizes da sexualidade de uma mulher (ou vice-versa)? são tão distintas uma da outra (ainda que possam temporariamente assumir os mesmos formatos/expressões) e parecem-nos igualmente absurdas e facilmente solucionáveis/ultrapassáveis quaisquer questões em relação ao outro (aumentado pela distorção da perspectiva) que por vezes magoamos o outro sem dar conta. no final, ainda que possamos perceber contornos, formatos e expressões, no fundo, acabamos sempre por não compreender. pode ser que haja uma base biológica para essa diferença, mas há também uma construção social que acentua a diferença e sobre a qual estão construídas algumas das noções de género"
quarta-feira, fevereiro 28, 2007
Cartografia / Cartography
terça-feira, agosto 15, 2006
dentes / teeth
Um dentista na minha boca é um construtor:
para além do ponto da possível higiene,
é necessário reconstruir,
erigir novos edifícios para substituir os antigos.
Tijolo e cimento fazem
o que o sabão é incapaz.
Cada vez que sorrio um pouco mais
é possível vislumbrar
vestígios de antigas civilizações,
alguns cobertos de densa vegetação.
Catedrais, templos, cemitérios,
pilares e menires apontam para céu.
Por vezes, quando como,
utensílios primitivos assomem à boca
caídos de um qualquer vale perdido,
por detrás de um molar,
onde os dinossauros
ainda andam livres...
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A dentist in my mouth is a constructor:
beyond the point of any cleaning,
it’s necessary to rebuild,
to erect new buildings to replace the old ones.
Brick and cement do
what soap is incapable.
Every time I smile a bit wider
it’s possible to see
remains of ancient civilizations,
some covered with dense vegetation.
Cathedrals, temples, cemeteries,
pillars and menhirs point to the sky.
Sometimes, when I eat,
primitive utensils emerge to my mouth,
fallen from some lost valley,
behind a molar,
where dinosaurs
still roam free…
terça-feira, maio 23, 2006
silêncio
in/define-se:
    p
               e
                            l
                                         o
                                                                 [vazio]
                                                                                                       )
é o que pomos silê(dentro dele)ncio
que nos diz, algo
terça-feira, março 28, 2006
Considering Time / Considerando o Tempo
Listening to / A Ouvir: Amália Rodrigues – A Tendinha
Starting with the idea, as proposed by some scientists, that Time is a dimension in which we can travel:
1. If Time is a dimension in which we can travel, then it would be possible to see the Future.
2. If it is possible to see the Future, then it is possible to change it, so we cannot see “The Future” but a possible future.
3. If we change the Future then:
3.1. Either we define the Universe with our actions and so it would be impossible to travel towards the future without changing it (which means we’re all time-travellers already: welcome to the future!) and travelling towards the past would make us an improbability (which is a paradox too complex for me to understand, but it seems to me to make it impossible to travel in that direction);
3.2. Or a new Time-Universe (a new timeline from the change point) is created, which I think we can discard if we take into account the infinite matter and energy necessary;
3.3. Or we travel into an already existing Time-Universe.
4. Taking into account that it would be impossible to anticipate which Time-Universes would have to exist, then all the possible Time-Universes would have to appear at the beginning of time.
5. If so, then it would be possible to travel transversally to Time, between Time-Universes, in a dimension defined by possibility.
Perhaps that’s what happens when we find the house keys in a place different than the one we were sure we’d left them or when someone we know so well behaves in a bizarre way…
Tomando como ponto de partida a ideia, proposta por alguns cientistas, de que o Tempo é uma dimensão navegável:
1. Se o Tempo é uma dimensão em que seria possível navegar, então é possível ver o Futuro.
2. Se é possível ver o Futuro, então é possível alterá-lo, assim, não podemos ver “O Futuro” mas um Futuro possível.
3. Se alterarmos o nosso Futuro, então:
3.1. Ou definimos o Universo com as nossas acções e, assim, seria impossível viajar para o futuro sem alterá-lo (o que quer dizer que já somos todos viajantes do tempo: bem-vindos ao futuro!) e viajar para o passado tornar-nos-ia numa improbabilidade (o que é um paradoxo muito complicado para eu o compreender, mas parece-me impossibilitar qualquer viagem nesse sentido);
3.2. Ou é criado um novo Universo-Tempo (uma nova linha de tempo no ponto da alteração), o que me parece que podemos descartar tendo em conta os gastos infinitos de energia e matéria;
3.3. Ou passamos para um Universo-Tempo que já existe.
4. Tendo em conta que não seria possível antecipar quais os Universos-Tempo que teriam de existir, então todos os Universos-Tempo possíveis teriam de surgir no início do tempo.
5. Sendo assim, seria possível navegar transversalmente ao tempo, entre Universos-Tempo, numa dimensão definida pela possibilidade.
Talvez seja isso que acontece quando as chaves de casa aparecem num sítio e temos a certeza de as ter guardado noutro ou quando alguém que conhecemos tão bem se comporta de forma tão bizarra...