domingo, julho 24, 2011

iluminação / illumination

não o conseguindo de outra forma,
tentei escavar na testa com as unhas
um terceiro olho,
mas também os segredos contidos na carne
não são suficientes para abri-lo

failing to do it otherwise,
i've tried to scratch out on my forehead
a third eye,
but the secrets contained in the flesh
are insufficient to open it as well

quarta-feira, setembro 01, 2010

On Art

Art has, these past decades, suffered a major shift from an aesthetical/theoretical/technical identity to a market one. With large profile auctions, where works from known artists reach the thousands of dollars, art as become, more and more, a status symbol, available only to the richest and controlled by its market. In spite of this, there was always public-funded art, where young artists could find an entry point into the museum and gallery world and controversial ones could make sure they didn’t have to compromise their values and goals. It all changed with these last years’ crisis: with public funding for arts and culture being cut, the major financial resources for both artists and venues are private investors. If we take into account Ranciére’s concept that aesthetics are ideological and political, we can see the danger of a private funded art: only the artists that fit a certain theoretical and ideological narrative will be funded and young artists will find it more and more difficult to get into the art world. This commodification of art isn’t a new phenomena and it’s been discussed lengthy throughout the twentieth century, but now, with the gap between classes becoming wider and with the neoconservative economics limiting every country’s budget, art as a form of class struggle and as ideology must be revived. Public funding of art and culture must be assured, either by the government, either by public groups. With museums and art collections becoming privatized, it’s our past and our future that is at risk, and it’s now that we must act.

segunda-feira, agosto 09, 2010

an apology of arrogance

people seem to think that we should tolerate one another to get along, i partly agree with it: we should tolerate others, but not when they're close.

tolerance is an attitude that, instead of accepting people for what they are, ignores them and creates a distance between us all. we don't tolerate good things, only bad ones. who ever heard of tolerating love or friendship? we tolerate faults and bad stuff, and tolerating someone is creating a rift between them, as if they are bad and wrong and we should just ignore it.

arrogance, on the other side, is accepting the solipsistic view that our biology confines us to and, being aware of it, relating to other people as they are, with all their faults and annoyances. only by accepting our own arrogance and by accepting others as they truly are can we relate closely to others. the key word here is "accepting", a moment of letting ourselves open to others and letting them into our lives. only arrogance permits us that.

terça-feira, dezembro 29, 2009

haunted

you know how in horror movies walls bleed in haunted houses? these past days the walls at my place seem to be sweating all the time, condensation hanging on them and dripping to the floor. i'm beginning to think that my house is haunted by an obese ghost, sweating at the least effort. at least it shouldn't be able to perform any frightful stunts apart from heavy panting or eating everything edible it finds...

segunda-feira, maio 18, 2009

#daydreaming on twitter

rough hands, soft bodies, hard walls
soft walls, strained bodies, hands held
tired bodies, hands glued, no walls

quarta-feira, abril 22, 2009

if it's not love

"If it's not love, then it's the bomb that'll bring us together"

Numa época em que o pós-modernismo se estabeleceu, onde as relações são mediatizadas pela produção de cultura e quando o tamanho dos grupos sociais ultrapassa os 160 que a ciência diz que parece ser o nosso limite, o que nos une como comunidade?

O Amor consegue unir-nos em pequenas unidades: casal, família, amigos, mas como poderemos nós justificar a existência e persistência de mega-cidades com 15 milhões de pessoas, todos convencidos da sua igualdade perante a lei e da sua unicidade como indivíduos?

Talvez a nossa capacidade social limitada possa explicar a proliferação de círculos sociais que frequentamos, mas não a nossa tolerância da maioria que nos é completamente desconhecida.

Será que, como cantavam os Smiths, é o medo que nos une? Vejamos o exemplo de Nova York pós 11 de Setembro e de como, contra um inimigo comum, todo um país se juntou, uma comunidade de milhões de pessoas, espalhada por milhares de quilómetros. As versões nacionalistas da História fazem-no constantemente: recontam as vitórias do passado para justificar qualquer pretensão e, por outro lado, também as derrotas para encontrar um inimigo comum que una as pessoas.

Será que, nesta época que se define como iluminada e racional, é só o medo que nos une?

quarta-feira, dezembro 31, 2008

“Pai, porque me abandonaste?” são, segundo Mateus e Marcos, as últimas palavras de Jesus na cruz. Nelas está expressa, na figura do Deus encarnado que assume, ao morrer, toda a sua humanidade, a condição humana: a Dúvida. Como se o assumir tão completo da humanidade O afastasse de Si próprio, O fizesse duvidar dos Seus próprios desígnios. Estas palavras parecem indicar o abismo racional que separa o Homem de Deus, a impossibilidade de conhecer ou compreender Deus.

Este é um tema facilmente compreendido pela ciência quando aplicado a outros contextos: pela biologia, no conceito da diferença da consciência animal e humana; pela sociologia, no conceito do grupo e da sua mentalidade colectiva em oposição ao indivíduo; na psicologia, na impossibilidade de compreender "o outro"; pela química, na impossibilidade de conhecer o estado de todas as partículas de determinado sistema; etc., mas que não costuma ser tomado em conta, a não ser por um punhado de filósofos e teólogos e no contexto de alguns textos religiosos.

Há não muito tempo, a religião e a ciência complementavam-se na missão de tentar conhecer Deus, só mais tarde, com os protestantes, se começaram a definir como antagonistas. Agora, depois do Iluminismo e das correntes ateias da filosofia, esta divisão parece inevitável, mas, se a dúvida é a condição humana, tanto a religião, como a ciência, como a filosofia são estratégias diferentes para lidar com ela, pela fé, pelo conhecimento, pela transcendência ou por qualquer outra via; estas estratégias, mais do que competirem entre si, complementam-se.

Não se pode cair em fundamentalismos ou radicalismos unilaterais ou negar alguma delas só porque ”não é possível provar” ou porque "vai contra os textos antigos": a Fé não exige prova, ajuda-nos a persistir no dia-a-dia, a encontrar significado na nossa vida; a Ciência tenta ser exacta, ajuda-nos a compreender o que nos rodeia e a desenvolver novas tecnologias para a nossa sobrevivência; e a Filosofia ajuda-nos a definir uma via, uma forma de estar e de agir. Sozinhas, em vez de nos ajudarem a lidar com a dúvida, só servem para nos cegar e dar-nos certezas que não existem, em conjunto, ajudam-nos a ser melhores.

quarta-feira, outubro 22, 2008

João 21:10

toda a noite afogado em rios de visco que escorrem das orelhas, empastando a almofada e colando-me o cabelo à cara
acordo assustado em pleno luar, para me levantar exausto horas depois, assombrado por simbologias estranhas e rapidamente obsoletas e esquecidas
as abluções matinais adiadas pela ansiedade do atraso habitual que me leva à conclusão de um atraso de anos, a oficialização de uma separação já há muito inevitável
um botão negro desponta por cima do estômago a abre no final da tarde, com a chuva, lançado no ar o seu pólen negro que se acumula debaixo das pálpebras
a fragilidade confessional abre-me a boca indiferente às dúvidas que se levantam
a pele encolhe-se com a humidade, imitando papiro, seco e áspero, revelando à superfície hieróglifos, indicações de rituais atrozes com o sangue a escorrer por degraus entretanto cobertos por vegetação
na rua, depois de impotente perdido por mapas não-familiares, um comando "espera!" sai de um capuz púrpura para um telemóvel que se esconde no fundo do saco a gritar por atenção. "foda-se!" o telemóvel cala-se em contacto com o ar e jesus sorri-me em tons laranjas de um postal agarrado à pressa para chegar a ele
no útero narrativo, hoje metamorfoseado em falsa sala de concertos, só um candy says na voz estrangulada de Antony me consegue deslocar do sonambulismo dentro do qual todo o dia me escondi
as ruas espelhadas de lisboa reflectem a minha passagem por velhos territórios na demanda de alívio negado por problemas técnicos
a torrente das palavras despenha-se no metro no regresso a casa onde as irmãs reinstauram a crueldade de uma lei inconsciente e o visco encrustrado de pólen negro me fecha os olhos